Malz aê, Caetano!

Olá, Caetano, tudo bem? Aqui quem lhe escreve é Thiago Emanuel. Sou um (não tão) jovem ator do Espírito Santo, radicado no Rio de Janeiro, com o qual você tem conversado bastante nos últimos tempos. Não está se ligando, né? Eu explico. É que apesar de nunca termos nos olhado frente a frente, suas músicas têm falado muito ao meu coração ultimamente. Seguimos assim, nessa troca direta-indireta, em que sua voz traduz exatamente o que sinto vontade de dizer e às vezes até o que já disse, embora isso soe muito pretencioso.

Foi a musa Maria Assunção que me obrigou a escrever para você. E devo confessar, se não fosse por ela, ainda estaria “cagando” para Caetano Veloso. Desculpa, é que ao longo da vida muitos amigos declararam mil amores por você e eu sempre ficava WHO CARES? Tipo, tô cagando baldes pra Caetano, Cacetano, Cá sentano, enfim… Graças a esses amigos e à Mary Assumption que entendeu a importância de seus alunos de história do teatro brasileiro conhecerem o Tropicalismo, que tudo mudou. Imagino que você, Gil, Lady Diva Suprema Bethany – que é intensa e não over #chorahaters, já estejam de saco cheio de falar nesse assunto. Mas eu não!

Antes de chegarmos ao assunto propriamente dito, preciso relembrar um outro artista, igualmente contestador, que adoraria ter conhecido você e o movimento tropicalista: Oswald de Andrade. Foi por causa do mergulho oswaldiano, no 1º semestre de 2020, que decidi mergulhar no Tropicalismo. À princípio, me pareceu natural. Ao dar as primeiras braçadas, vi que mais do que natural, os temas conversavam bastante. Sério, ele ficaria orgulhoso de ver como vocês abraçaram a brasilidade e o antropofagismo, a capacidade de dialogar com culturas de outros países, destacando e valorizando o que é brasileiro e somando o que pode fortalecer a construção da nossa arte.

Também fico pensando a respeito daquele momento, virada dos anos 1960 pros anos 1970, todo o contexto político mundial e o que estava acontecendo com a juventude ao redor do globo. Foram inúmeros os movimento, grupos artísticos, que contestavam o establishment e pregavam o prazer, o amor e a liberdade. No Brasil, vocês foram os responsáveis por nos colocar em sintonia com aquele pensamento.

Anacronicamente olhando, quase 50 anos depois, parece que houve uma convergência de pensamentos e interesses. Enquanto você puxava a discussão pelo campo musical, tínhamos Glauber Rocha com suas propostas junto ao cinema, assim como José Celso Martinez, no teatro – que bom que dessa vez, o teatro não ficou de fora! Além de se abrir para o desbunde, a montagem de O Rei da Vela é como a reparação de um equívoco. Através do olhar de Martinez, finalmente ganhou os palcos uma visão crítica da sociedade brasileira, que permanece atual.

Tentamos beber da fonte tropicalista através dos recursos que dispúnhamos: leituras, documentários, programas de TV e muita troca entre todos os membros do grupo. A partir dessas trocas, tivemos a ideia de criar a TV Desbunde – veja o vídeo abaixo. Sentimos que, mais importante do que apenas repassar conteúdos a respeito do tropicalismo – já que estávamos fazendo um seminário, era nos permitir ser tocados e transformados por suas ideias. Nos desbundamos, brincamos, estudamos e criamos esse produto abaixo, que compartilho com você com a maior satisfação.

Espero que esse trabalho tenha de fato servido como uma ode ao tropicalismo. Foi um processo muito desafiador, em meio a pandemia, em que tivemos que adaptar nossos quereres às nossas possibilidades. De qualquer forma, o resultado nos orgulhou bastante e agora esperamos que também orgulhe a você.

Fica aqui, mais uma vez, meu pedido desculpas. De agora em diante, não que você precisasse, tens mais um defensor, alguém que havendo a menor necessidade não teimará em dizer: Respeite, Caetano, viado!

Sinceramente,

Thiago Emanuel

Top 5 momentos no S.A.D

Um grupo de “doutores” se reúne para ler casos de ouvintes e aconselhá-los, com muito bom humor. Esse é o S.A.D – SEU ALÍVIO NO DIVÃ, podcast que tenho a honra de participar desde o final de 2018. O programa é do site Seriadores, uma holding que tem diversos podcast, sendo o S.A Cast o principal, mas voltado para séries.

No dia 21/09, o Facebook me lembrou que completamos bodas de algodão. S2

Ilustrações: @jeff.ilustra

Para homenagear os leitores que vieram por causa do S.A.D, e também para aqueles que não conhecem essa minha vertente, preparei uma lista com meus 5 momentos preferidos no SAD!

5) S.A.D 72

Essa edição é perfeita para os marinheiros de primeira viagem no S.A.D. Ela me marcou por ter sido a primeira que eu participei, mas também ajuda àqueles que estão chegando agora a se situarem. À medida que o então convidado (eu mesmo), vai entendendo como o programa funciona, o ouvinte também consegue ter uma boa noção de como o S.A.D funciona.

Caso memorável: a bezerra xamânica

“Mais um Dia Normal na Heterolândia”
Um desabafo após o jogo de pôquer foi suficiente para acordar a bezerra de Rodrigo, esse rapaz gay que se viu irremediavelmente seduzido pelo primo hétero prestes a se casar. A despeito de ser uma pessoa muito controlada e do esforço para terminar os atos carnais, ele não consegue calar sua criatura xamã mugindo num crescendo progressivo e intenso, no canto mais recôndito de seu cérebro.

Clique aqui para escutar

4) S.A.D 78

Muitos dos meus momentos mais divertidos no S.A.D envolvem alguma self exposition desnecessária. E é o caso dessa edição, quando dou dicas para um dos ouvintes fazer uma depilação anal. A dica em si não é um problema, ele depois até retornou dizendo que seguiu o passo a passo e se deu bem. O problema está na narrativa e no excesso de detalhes. Ouça aqui.

Caso memorável: Harry Puta

SADúvida: “Como me livrar do inconveniente que são os pelos na retaguarda?”

3) S.A.D 87

Adoro essa edição por marcar meu reencontro com Camis Barbieri – essa diva icônica que arranja emprego para as pessoas. Sou fã dessa moça que te arranja arroz com feijão para comer às 23h30 e com quem eu tive a alegria de integrar o elenco no saudosíssimo Podmaníacos. Foi para matar saudade da canalhagem e sapiência da Barbieri Original – recuse imitações (brinks Alê).

Caso memorável: Ai que rodo gostoso

“Mordedura Cabal”
Indignada com as constantes marcar de dente em seu rodo, Mona está disposta a ir às últimas consequências para descobrir quem é o cliente feticheiro com tara em morder o cabo. Estudante de filosofia, mais compreensiva, Tilelê acha que a amiga está sendo misógina e não sabe o aperto que ele pode ter passado para recorrer às dentadas.

Vem ouvir nesse link.

2) S.A.D 99

Os ouvintes estavam inspirados nessa edição. Ela traz um de meus casos favoritos pelas reviravoltas e imprevisibilidades do roteiro. Walcyr Carrasco chorou lágrimas de sangue depois de ouvir tamanha criatividade. Escute aqui.

Caso memorável: Bode no carro funerário

“Rinheiros Ornamentados no Xênon Fuleiro”
Comer coxinha, espetinho e paçoca com o Xandi foi só o início da história de Dana, que subiu sem medo na camionete funerária do rapaz, buscou a Zumira e partiu numa jornada rumo a rinhas de galo, roubo de bode e chantagem de gente com bafo.

1) S.A.D 114

Essa edição superou todos os limites da exposição desnecessária. Foi a primeira vez que fiquei constrangido ao ouvir os absurdos que falo (nada digno de cancelamento, esse é o 119) durante uma gravação. Mas para você, que não sou eu, tá sussa manter o distanciamento. Um dos meus momentos preferidos é quando conjugo o verbo punhetar (again, qual a necessidade?) Ouça!

Caso memorável: o alcoontecimento

“Na Ponta dos Dedos”
Caipirinhas, dedos e abraços na noite compõem esse thriller de suspense pornográfico entre colegas de apartamento que tem tudo para acabar mal.

BRINDE – INDIE TIME

Gente, o Indie Time é o podcast do podcast. Todo material aparentemente desconexo que não entra no S.A.D, ganha uma nova roupagem e ressignificação nas mãos talentosas do Leonardo Oliveira. Algumas das maiores risadas que já dei escutando o S.A.D foram no Indie Time, e também onde eu descubro as falsidades – tô falando de vocês mesmo, seu Sidney e dona Alê!

No Indie Time Proibidão do Ombro em V, realizo o sonho de participar do programa e, de quebra, ganho uma edição toda autocentrada. Promessa garantida de risadas!

A despedida de uma flor

Eram duas flores que não estavam mais na flor
Uma delas, até tinha esquecido que era flor!
Não por sua culpa. Era, apenas, a vida.

Desde muito botões foram colocadas lado a lado
Criaram raízes muito fortes e se mantiveram ali,
Juntas, suportaram tempestades, ventos, pragas e monções.

Uma delas é um encanto de rosa.
A outra, pasme só, costumava ser um cravo. Virou roso.
É claro, porque para fazer par com a rosa só mesmo sendo um roso!

O roso e a rosa…

A rosa amou um roso
Que coisa mais engraçada.


E floresceram! Nasceram flores tão lindas, mas tão lindas…
E diversas também.
Floresceram tanto, que logo se viram em meio a um imenso jardim.
Essas flores encontraram outras flores.
Que encontraram outras flores, e outras flores.
Algumas ficavam por um tempo.
Outras iam embora sem se despedir.
Outras simplesmente preferiam florescer em outros jardins.
Outras, eram arrancadas.

O roso ficou ferido
E a rosa despaçada.


Havia também algumas flores que já estavam ali.
Até antes daquelas duas flores que não estavam mais na flor.
Que já não exibiam as mesmas cores, as mesmas texturas, o mesmo aroma…
Mas estavam ali, juntas.

…ou a despedida de uma flor

O roso ficou doente,
A rosa ao seu lado está.
O roso fora arrancado
E a rosa pôs-se a chorar.


Fora arrancado. Do chão. Da rosa.
De todas as flores daquele jardim.
A rosa ainda pulsa. Precisa continuar seguindo.
Continuar seguindo. Redundâncias que fazem sentido.
Ou precisam fazer sentido.

É a vida. Só sabemos que ela segue.
E todos os dias precisamos encontrar novos motivos.
E continuar seguindo.