Diário de um Bricoleur

Bricolagem:
como vim parar aqui?

Existe uma versão curta para essa história e lhe apresento a seguir. Esta página existe para atender ao critério de avaliação do querido mestre João Dala, na disciplina Bricolagem e Reaproveitamento de Materiais, do curso de Licenciatura em Teatro, na Faculdade Cesgranrio. Sua proposta é que a gente faça um relato de todo o processo que desenvolveremos ao longo do 2º Semestre de 2020. E foi assim que viemos parar aqui.

Com vocês, a versão longa!

Que diacho é bricolagem? Bastava dar um Google para responder à essa pergunta, mas se tem uma coisa que não gosto de me privar é a oportunidade de aprender diretamente com quem admiro e certamente entende do assunto. A escolha se mostrou acertada, pois fiquei extremamente apaixonado pela forma como o tema foi apresentado. A partir da leitura de um texto de Lévi-Straus, discutimos a etimologia do termo, as diferentes traduções, sua ancestralidade, as relações dialéticas entre bricolagem e engenharia, enfim… a proposta acabou se tornando uma provocação.

A primeira aula ocorreu em 19 de agosto de 2020. A seu término, estava extasiado com as possibilidades e certo que aquele mergulho poderia me levar a diversos lugares. E que seja um mergulhar profundo! Não apenas para conhecer o que existe do lado de fora, mas principalmente o que existe do lado de dentro. Passei a ressignificar bastante coisas a partir daquele reencontro com João Dala e outros colegas de turma: Milena Paiva, Rafael Assis, Raffael Araújo, Thiago Lourenço (meu ex-homônimo) e Gilberto Behar.

Uma das coisas que ressignifiquei foi minha Vó Zizinha. Era uma avó de consideração que eu tinha quando era bem menino e morava no Araraí, interior de Alegre (ES). Algumas coisas me passam pela cabeça ao pensar sobre ela. De imediato, vem os aromas. Aquele misto de perfume floral, também conhecido como “perfume de velho”, misturado com a fumaça dos muito cigarros que ela fumava ao longo do dia. Ela também tinha diabetes, que me foi apresentada como “açúcar no sangue” (como pode ter ido parar açúcar no sangue da pessoa? Me questionava). Ela era preta, tinha cabelos crespos e grisalhos, que escondia às vezes com lenços, outras vezes com uma tinta acaju.

“Quem guarda o que não presta, tem sempre o que precisa”

Um sábio desconhecido

Lembro de ouvi-la repetir a frase acima, sempre que pegava algo que alguém estava jogando no lixo e achava aquilo um absurdo. Tá praticamente novo… ainda dá pra usar! Quão libertador pode ser entender isso: que muitos dos objetos que nos são empurrados através do consumo, só existem em razão de terem uma utilidade. A urgência de trocar esses objetos/produtos decorre de uma série de estímulos. Está na mídia, está nos modelos, está na vida padrão que a sociedade branca cristã insiste em nos empurrar.

O ato de coletar coisas está muito relacionado a prática de bricolagem (abaixo eu mostro 16 verbos do bricoleur). Foi daí que veio a lembrança da Vó Zizinha. Porém, as voltas que o carrossel da vida dá me fez, em algum momento de 2019 (quando mudei para o Rio para cursar minha segunda faculdade), decidir que passaria a reaproveitar materiais. E apenas porque podia precisar montar uma peça sem dinheiro nenhum. Comecei a acumular garrafas de vidro, plásticos diferentes, materiais que me chamavam a atenção pela textura, além de achados pela rua. Tinha um pouco a ver com uma pesquisa de ator, no sentido de buscar objetos do mundo real que venham carregados de relações próprias. Pouco antes disso, ainda no fatídico 2018, já havia desenvolvido uma paixão por objetos dados ou herdados de amigos.

E tem mais (adendo feito a posteriori), a própria noção de ressignificar também está diretamente ligada a bricolagem.

Agora, essas coisas todas juntas, parecem que adquiriram novo valor. Qual o sentido disso?

Provavelmente nenhum. E nem precisa ter! Me encantei pelo espírito do bricoleur, de respeitar e amar o processo, de ter muitas dúvidas, de ‘fazer você mesmo’, de conexão com ancestralidade, com sua possível aplicação como abordagem metodológica. Enfim, é justamente por valorizar o processo que não faço promessas aqui. Não estou afirmando, em 02/09/2020, que agora eu sou bricoleur. Eu lá sei o quê que eu sou! O que estou é bastante empolgado, com vontade de fazer e disposto a experienciar ao máximo esse tema ao longo do 2º Semestre de 2020.

Te convido a acompanhar essa aventura pela bricolagem. Bora?

Encontro 2 – 26/08/2020

Nesse encontro, fizemos a leitura de um texto “Sobre a pesquisa enquanto bricolagem, reflexos sobre o pesquisador como bricoleur”, escrito por Aline Nunes. Entre suas reflexões, está a proposta de utilizar a bricolagem como uma abordagem metodológica, na qual podem se basear propostas artísticas, científicas ou educacionais, por exemplo. No texto, ela aborda uma contradição entre você definir um método para depois partir para a prática, neste universo da bricolagem. A conclusão que cheguei é que essa operacionalização é importante como um ponto de partida, mas que deve permanecer aberta para se modificar no decorrer do processo. É importante seguir pisando em solo arenoso, até conseguir aliar um método aos nossos objetivos. Estes, que também devem ser frutos de constantes achados e perdas.

Atividade proposta:

Criar um mapa conceitual, abordando o universo da bricolagem – de modo que nos sirva como guia nas próximas etapas do processo. Era importante que esse mapa abordasse três eixos principais da bricolagem: materialidade e visualidade, prática artística e processo e, por fim, pesquisa. Depois da discussão, nos afastamos temporariamente com essa missão.

Dias antes, havia encontrado uma caixa com fitas que julgava estarem perdidas (os Lourenço do Alegre tem essa mania de não guardar muitos pertences, porém bonecas, temos aos montes). Essas fitas são registros de uma época analógica, em que paixões, interesses e vocações se confundiam. Onde os sonhos e os propósitos eram diferentes. São gravações, apenas de áudios, minha e de minhas irmãs ainda bebês, interagindo com nossos pais.

Em algum dado momento, por volta de 1999 e 2000, eu brincava de gravar programas (como se fossem de televisão) porém eram apenas com áudios. Lembro que fazia uma grande ginástica para organizar as gambiarras que eu precisava realizar para colocar uma música de uma fita, para outra fita, de conseguir colocar minha voz – graças a um aparelhinho de som CCE com microfone embutido.

Todas essas lembranças foram recém-coletadas, mas ainda não foram redescobertas. Adquiri um aparelhinho conversos e estou aguardando a entrega para ver o que o Thiago Emanuel de 1999 tem a dizer para o Thiago Emanuel de 2020. Nesse achado, encontro a comprovação de que assinar meu nome, dessa forma, ao invés de Thiago Lourenço, como fazia desde que comecei no teatro, estava muito mais ligada a minha história. Veja no vídeo abaixo, a letrinha de criança.

Achado 01

26/08/2020, Alegre (ES)

As fitas não tem muito a ver, mas como o frisson do achado calhou com a realização do encontro do daquele dia, decidi usar aquela caixa de tesouros para fazer essa atividade que me serviria de sul (por que sou obrigado a ir ao norte?) na prática de bricolagem.

O que foi feito?

Separei os eixos

Decidi não consultar a biografia e relacionar termos ligados a bricolagem, dividindo-os entre os eixos propostos. Assim surgiu:

MATERIALIDADE/VISUALIDADE
  • Diversidade de materiais e elementos;
  • Fragmentação;
  • 5 sentidos;
  • Reaproveitamento;
  • Energia das coisas (ancestralidade);
  • Acervo.
PRÁTICA
  • Faça você mesmo;
  • Colete coisas;
  • Não se prenda aos signos originais;
  • Respeitar o processo;
  • Objeto se impõe à (sua/minha) vontade;
  • Ininterrupção;
  • Sustentabilidade;
  • Ancestralidade;
  • Experimentação;
  • Incerteza;
  • Casualidade;
  • Diversidade de práticas;
  • Organização.
  • Criação/Investigação.

PESQUISA
  • Abertura para o diverso;
  • Ressignificação;
  • Experimentação;
  • Incertezas;
  • Colete ideias;
  • Diagnóstico conceitual;
  • Intermultidisciplinaridade;
  • Acervo.

Parti para a ação

A proposta de fazer um mapa conceitual tem um caráter teórico-visual. Depois de avançar na parte teórica, queria mesmo era partir para a ação. A ansiedade de usar as guaches, cola, pinceis, coisinhas que havia comprado outro dia na papelaria, enquanto batia um papo distanciado de minha prima Dâmaris, que casualmente encontrei na papelaria. Vê só, se eu não tivesse me distraído com as guaches, não teria demorado tempo suficiente para esse encontrinho do amor. Thank’s Bricolagem #prayforbricolagem

Tenho dois quartos. Um fica no Alegre, é na casa dos meus pais (único filho que ainda possui quarto, mesmo sem morar aqui, digo com orgulho), e outro no Rio de Janeiro. Existem uns bagulhos que guardo aqui nesse quarto. São dvds, blurays, livros, mimos, impressos (o tal do portfólio), enfim, toda sorte de coisinhas. No meio desse ambiente, durante nosso orkontro do amor (defini, vou chamar assim), o encontro com o mestre e meus colegas, me veio o que só posso definir como um troço. Não sei dizer a ordem, só sei que foi assim!


Impressos

Abri umas caixas do guarda-roupas e Caraca, tem muita revista aqui, inclusive algumas que eu editei ou assino textos.


Caixa

Manô, eu encontrei essa coisa guardada há milênios que tem áudios meus criança, fazendo um “podcast”, antes de existir podcast, sendo que hoje eu gravo podcast. Sinistro!


Materiais

Tenho cola, tenho pincel, tenho tinta, tenho tesoura, tenho vontade, o que tá faltando? Notei que já havia feito aquilo antes. Ah sim, mágoa…

A mágoa a.k.a. fator decisório

Era uma vez uma criança que foi apaixonado por uma menina, vamos chamá-la de Alice. Para conseguir expressar o que sentia, decidiu escrever uma carta, mas sua insegurança o levou ao anonimato. Eu não sei se ela (ainda) gosta de mim! Com muito amor, ele recortou letrinhas e disse todas as coisas bonitas que gostaria que ela soubesse. Funcionou em Carrossel. Pode dar certo!

A carta foi colocada na mochila na hora do recreio. Alice só seria vista novamente ao fim da aula, já que ela estudava com a irmão número 2 daquele garoto. Havia muita ansiedade para saber como ela estava se sentindo depois de ler algo tão lindo, tão verdadeiro. E veio o deboche. O escárnio. À princípio ele não tinha certeza, mas no trajeto da escola até em casa, foi se dando conta de que não estavam rindo para ele, mas rindo dele. Como se o que ele sentisse não significasse nada. E a irmã que ele tanto amava, ainda estava no meio!

Vai ficar horrível? Eu sei! Mas vou fazer mesmo assim.

“Desestabilizando conceitos, suspendendo certezas”

Aline Nunes, sobre bricolagem

No final do encontro, além de muita alegria e empolgação por simplesmente ter feito, saiu isso que está aí em cima. O dinossaurozinho é presente que o Heitor deu pro Ti Thiago e acabou entrando também. A intenção era dar um efeito verniz, passando a cola também por cima. Flopou. Fazer o quê? Não te prometi sucessos!


Doado 01

Você tá juntando lixo? Não quer essa antena pra você?

Mãe, Minha.

Antena de TV digital estragada e também já tem esse fio aí que nunca se sabe. Coletei por interesse na forma do suporte de plástico e, obviamente, por ter achado muito fofo minha mãe pensar em mim antes de jogar esse “lixo” fora!

Quando: 27/08/2020, em Alegre (ES)


Doado 02

Vou tirar isso, amigo, não tô aguentando mais esse peso, esse caloooor!

Nunes, Joatan

Um dia depois de colocar tranças nagô pela terceira ou quarta vez, a pessoa se arrependeu. Disse que não lembrava que pesava, coçava, doía e era tão quente! Na mesma hora pedi. O motivo? É nagô, viado! E é minha irmã Joatina, a pessoa com quem eu aprendi o que era o termo bicha.

Quando: 28/08/2020, em Araraí (ES)


Achado 02

31/08/2020, Alegre (ES)

DECISÃO SÚBITA 01 – 31/08/2020

Essas duas peças são heranças de um diretor chamado Wilson Nunes, capixaba, que nos deixou em 2019. Foi um trabalho muito intenso, de bastante aprendizado e de fundamental importância para alguns dos rumos que minha vida tomou no ano seguinte. Não sabia o que fazer com a mesinha, mas nós demos uma paquerada, trocamos uns olhares e de repente me veio: Você vai ser o meu cantinho da bricolagem! A caixa, também de madeira, ainda permanece sem destino. O lacinho, que caiu da cãzinha Luna, obviamente também está no pacote. Já o sapato…, será que a dona perceberia?


Encontro 3 – 02/09/2020

A iminência do terceiro encontro me fez retomar o exercício iniciado na aula anterior, para produção do mapa que nos serviria de guia nessa aventura bricoleur. Com base nos termos levantados anteriormente, decidi buscar alguns verbos fundamentais para a bricolagem. Os verbos são importantes porque eles indicam uma ação. Nessa visão, os 16 levantados se tornam fundamentais para um pensamento da bricolagem enquanto prática.

Como a ideia era que esse mapa também fosse algo visual, decidi seguir a linha iniciada na Caixa da Bricolagem, que comecei a fazer no encontro anterior. Para que eles ficassem sempre visíveis, utilizei a tampa e busquei recortes de jornais e revistas para montagem dos verbos, sendo eles:

  • Fazer
  • Errar
  • Transformar
  • Unir
  • Escrever
  • Investigar
  • Ruminar
  • Acreditar
  • Coletar
  • Experimentar
  • Organizar
  • Diagnosticar
  • Ouvir
  • Reaproveitar
  • Construir
  • Reconstruir

Os 16 verbos do Bricoleur

Tampa da Caixa da Bricolagem, que reúne diversos materiais e ferramentas para ajudar os trabalhos manuais.

Voltando ao Encontro do dia 02/09/2020, seu tema foi “Elementos visuais e suas características”. Na ocasião, fizemos um debate sobre a estruturação de elementos no âmbito visual. Essa estruturação se dá em três níveis de composição (representacional, abstrato e simbólico), que apesar de colocados de forma separada, são interligados e frequentemente se sobrepõem.

Avançamos e chegamos a alguns elementos visuais básicos que fornecem as bases para construção da imagem: ponto, linha, forma, plano, cor, textura, escala ou proporção, dimensão e movimento. A missão deixada pelo mestre João Dala para o próximo encontro foi a de trazer uma obra referencial, que seja verbal, para o desenvolvimento do nosso próximo exercício. A partir dessa referência textual, veremos como transformá-la em conceito, estética e imagem. É claro que fiquei ansioso!

Achado 03

MAPA CONCEITUAL